terça-feira, 24 de janeiro de 2017

COMO O CÉREBRO JOGA?



Os jogos de estratégia em tabuleiros têm sido amplamente utilizados por educadores como recurso para melhorar aprendizagem de crianças com desenvolvimento típico e também daquelas com dificuldades para aprender. No entanto, a prática pedagógica com jogos sustentada pela literatura em educação (Harris, Christopher, 2009; Macedo, 1995) conta com resultados pouco confiáveis pela falta de padronização da avaliação escolar e pela subjetividade envolvida na observação pelo professor. Com isto, os resultados obtidos com o uso desses jogos e as conclusões sobre a eficácia desse recurso para alcançar o objetivo de melhorar a aprendizagem ainda carecem de dados que demonstrem evidências significativas dessa hipótese, embora seja defendida por muitos professores. Estudos em Neurociências têm trazido informações que podem ajudar a entender como o cérebro funciona durante várias tarefas cognitivas, dentre elas, aquelas envolvidas nas situações de alguns jogos de tabuleiro e de estratégia. As evidências apresentadas nesses trabalhos podem contribuir para sustentar uma análise da escolha e dos resultados de uma ação pedagógica eficiente utilizando jogos.
Embora as pesquisas em neurociências ofereçam um admirável mundo novo aos educadores, a complexidade desse universo, até então desconhecido, traz consigo muitas dúvidas e equívocos na interpretação desses achados. A divulgação de resultados de pesquisas realizadas com seriedade entre um grupo de pessoas pouco informadas a respeito de como funciona o cérebro podem gerar verdadeiros “neuromitos” que pautam a atitude de educadores na realização de seu trabalho e podem prejudicar o processo de aprendizagem de muitas crianças e adolescentes.
Segundo os autores de “Caçadores de Neuromitos” (Ekuni, Zeggio & Bueno, 2015), um “neuromito" diz respeito à divulgação de interpretação equivocada sobre a ciência do cérebro”. Um desses neuromitos diz respeito ao incremento cognitivo por meio do treino com jogos e games e incentiva o consumo desses recursos para se tornar mais inteligente. No entanto, muitos neurocientistas no mundo todo têm afirmado que isso não é verdade e que programas que utilizam games com a promessa de aumentar o QI ou melhorar o desempenho cognitivo são enganadores e apenas fazem o consumidor perder seu tempo e dinheiro. É o que acredita um grupo de 70 cientistas que assinaram um documento divulgado em dezembro de 2014 pela Universidade de Stanford e pelo Instituto Max-Planck de Berlim para o Desenvolvimento Humano. Em uma citação do documento divulgada no blog Mente e Cérebro (2015), pode-se ler que “não há resultados que suportem o argumento de que ‘jogos cerebrais’ alterem o funcionamento neural de forma a melhorar o desempenho cognitivo no dia a dia, prevenir o declínio cognitivo ou doenças do cérebro”
No entanto, a questão parece controversa e podemos encontrar neurocientistas que admitem os benefícios de jogar para melhorar as habilidades cognitivas e vencer dificuldades acadêmicas. Embora não haja consenso sobre os benefícios dos jogos de computador para a melhora cognitiva, “alguns estudos sugerem que a prática de certos jogos pode reverter déficits de aprendizado característicos da dislexia, e até mesmo acarretar a transferência de habilidades entre domínios cognitivos distintos” (Ribeiro, S., 2013). Ou seja, jogar poderia gerar mudanças significativas no comportamento e na aprendizagem e estaria, portanto, ligado ao processo de neuroplasticidade.
Há trabalhos esclarecedores que utilizam imagens de ressonância magnética funcional (fMRI) ou outras técnicas para mostrar o que acontece no cérebro das pessoas quando jogam ‘Xadrez’ e ‘Go’, por exemplo. Pesquisadores demonstraram que quando estamos jogando esses jogos, as regiões mais ativadas do nosso cérebro coincidem com alguns circuitos neurais relacionados às funções executivas (Atherton, M., Zhuangb, J., Bart, W. M., Hud, X. & Hec, S., 2002; Chen, X., Zhang, D., Zhang, X., Li , Z., Meng, X.. Hec, S. & Hud, X., A, 2003) e que o cérebro de pessoas que jogam há muito tempo é diferente do cérebro de pessoas que não jogam muito (Lee, B. et al. 2010). De acordo com outros estudos, essas diferenças podem ter correlação com mudanças de comportamento e melhora de habilidades como atenção e memória de trabalho e há propostas de protocolos para mensurá-los (Tachibana, Y. et al. 2012). Outros estudos ainda demonstram as especificidades de alguns jogos para o treinamento de habilidades cognitivas complexas, por exemplo, raciocínio dedutivo ou condicionado (Best, J., 2006) e sobre a correlação entre a forma do tabuleiro e a aprendizagem de magnitudes numéricas (Siegler, R.S. & Ramani, G. B., 2009). Alguns pesquisadores afirmam ter encontrado evidências significativas de que um programa de treinamento com o jogo de Go melhora a atenção e memória de crianças em idade escolar, incluindo aquelas com TDAH mas o comportamento impulsivo, característico dessas crianças parece não ter sofrido impacto significativo proveniente desse treinamento ((Kim, S.H. et al. 2014).
Gostaria de saber mais? Esse será o tema do nosso encontro no dia 15/02/2017, no Instituto Lumina, em Belo Horizonte. Venha conhecer esses e outros trabalhos com as evidências do impacto dos jogos de tabuleiro na atenção, memória, controle inibitório, raciocínio, ou seja, nas funções executivas relevantes para um desempenho acadêmico satisfatório. Aguardo você!
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Referências;
1. Atherton, M., Zhuangb, J., Bart, W. M., Hud, X. & Hec, S. (2002). A functional MRI study of high-level cognition: The game of chess, Cognitive Brain Research
2. Bavelier, D. C., Green, S., Pouget, A. & Schrater, P., (2012). Brain Plasticity Through the Life Span: Learning to Learnand Action Video Games, Annual Review of Neuroscience
3. Best, John, (2006). Conditional reasoning in the contexto of strategy development in the logical deduction game ‘mastermind’, North American Journal of Psychology, p245
4. Chen, X., Zhang, D., Zhang, X., Li , Z., Meng, X.. Hec, S. & Hud, X., A (2003). 
functional MRI study of high-level cognition: The game of GO, Cognitive Brain Research
5. Ekuni, R., Zeggio, L. & Bueno, O. F. A. (2015). “Caçadores de neuromitos: o que você sabe sobre o funcionamento do seu cérebro é verdade?”, São Paulo: Memnon Edições Científicas
6. Harris, Christopher (2009). Meet the new school board: board games are back and they're exactly what your curriculum needs, School Library Journal
7. Kim, S. H., Han, D. H., Lee, Y. S., Kim, Bing-Nyun, Cheong, J. H. & Han, S.H. (2014). Baduk (the Game of Go) Improved Cognitive Function and Brain Activity in Children with Attention Deficit Hyperactivity Disorder, Psychiatry Investigation
8. Lee, B., Park, Ji-Young, Jung, Hoon, W., Kim, H. S., Oh, J. S., Choi, C. H., Jang, J. H., Kang, D. H. & Kwon, J. S. (2010). White matter neuroplastic changes in long-term trained players of the game of “Baduk”1 (GO): A voxel-based diffusion-tensor imaging study, NeuroImage
9. Macedo, Lino (1995). Os jogos e sua importância na escola, Cadernos de Pesquisa, SP:Fundação Carlos Chagas, 93:5-11
10. Mente e Cérebro, blog (2015). 
11. Rabipour, S. & Raz, A. (2012). Training the brain: fact and fad in cognitive and behavioral remediation, Brain and Cognition
12. Ribeiro, S. (2013). Tempo de cérebro, Estudos avançados, 27:77
13. Siegler, R.S. & Ramani, G.B. (2009). Playing number linear board games – but not circular ones – improves low-income Preschoolers’ Numerical Understanding, Journal of Educational Psychology, vol.101, 3:545-560
14. Tachibana, Y., Yoshida, J., Ichinomiya, M., Nouchi, R., Miyauchi C., Takeuchi, H., Tomita, N., Arai, H. & Kawashima, R. (2012). A GO intervention program for enhancing elementary school children’s cognitive functions and control abilities of emotion and behavior:study protocol for a randomized Controlled trial, Trials




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